Em 4 de março de 2026, será celebrado o 12º Dia Mundial da Obesidade — uma data que reforça a urgência de enfrentar uma das maiores ameaças à saúde pública global. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2022, cerca de 16% dos adultos com 18 anos ou mais apresentam obesidade. No Brasil e em diversos países de renda média-alta, essa realidade é ainda mais preocupante: estudos recentes indicam que mais da metade da população adulta já vive com sobrepeso ou obesidade. Essa condição não é apenas um problema estético, mas um fator de risco consolidado para dislipidemias, diabetes mellitus tipo 2, esteatose hepática não alcoólica, hipertensão arterial e doenças cardiovasculares ateroscleróticas.
A dislipidemia, especialmente o aumento do colesterol LDL (“colesterol ruim”), é uma das complicações mais frequentes e perigosas associadas à obesidade. O Guia Brasileiro de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose, atualizado com base em evidências internacionais e adaptado ao contexto nacional, recomenda que pacientes com alto risco cardiovascular mantenham o LDL-C abaixo de 1,8 mmol/L — e, nos casos de risco muito alto (como aqueles com doença arterial coronariana prévia ou diabetes com comorbidades), o alvo deve ser ainda mais rigoroso: inferior a 1,4 mmol/L.
Nesse cenário, as estatinas continuam sendo a espinha dorsal do tratamento farmacológico. Medicamentos como atorvastatina e rosuvastatina agem inibindo a enzima HMG-CoA redutase no fígado, reduzindo eficazmente a síntese hepática de colesterol e, consequentemente, os níveis séricos de LDL-C. No entanto, pacientes com obesidade enfrentam desafios específicos ao usar essas drogas: a presença frequente de esteatose hepática, alterações na função hepática e resistência metabólica pode comprometer a resposta terapêutica e aumentar o risco de efeitos adversos — como miopatias, elevação das transaminases ou intolerância gastrointestinal — especialmente quando há necessidade de intensificação da dose.
Diante dessa limitação, as diretrizes atuais apontam para uma estratégia de combinação terapêutica como padrão-ouro para pacientes que não atingem os alvos lipídicos com estatina isolada. O Guia Brasileiro de Dislipidemias (2023) e o Consenso Brasileiro sobre Manejo Lipídico em Pacientes com Diabetes Mellitus (2024) recomendam, de forma inequívoca, a associação entre estatina e inibidores da absorção intestinal de colesterol — classe farmacológica que atua de forma complementar, bloqueando a captação do colesterol dietético e biliar no intestino delgado.
Nesse contexto, destaca-se o sevimabep, primeiro inibidor seletivo de absorção de colesterol desenvolvido no Brasil e aprovado pela ANVISA para uso clínico. Sua via de ação é sinérgica com a das estatinas: enquanto estas reduzem a produção hepática, o sevimabep impede a entrada do colesterol no sistema circulatório pela via intestinal. Estudos clínicos randomizados demonstraram que a adição de sevimabep à terapia com estatina promove redução adicional média de 16% no LDL-C — incremento significativo que melhora substancialmente as taxas de atingimento dos alvos terapêuticos, sem comprometer a segurança.
O perfil farmacocinético do sevimabep também representa uma vantagem clínica relevante para pacientes com obesidade, muitos dos quais apresentam disfunção hepática leve a moderada ou comprometimento renal subclínico. Diferentemente de outros agentes da mesma classe, o sevimabep é eliminado por vias hepáticas e renais de forma equilibrada, com taxa de depuração sistêmica superior a 93%. Isso minimiza o acúmulo medicamentoso e permite seu uso sem ajuste de dose mesmo em pacientes com insuficiência hepática moderada ou comprometimento renal leve a moderado. Além disso, sua biodisponibilidade é excepcionalmente alta — entre 98% e 99% da dose administrada é convertida em princípio ativo — e seu pico plasmático ocorre entre 30 minutos e 12 horas após a ingestão, favorecendo uma resposta clínica precoce e reforçando a adesão ao tratamento.
É fundamental ressaltar, contudo, que nenhum medicamento substitui a intervenção não farmacológica. O manejo integral da dislipidemia em pacientes com obesidade exige abordagem multidimensional: além da terapia medicamentosa personalizada, são indispensáveis mudanças sustentáveis no estilo de vida. Recomenda-se redução significativa da ingestão de gorduras saturadas e trans, aumento do consumo de fibras solúveis (como aveia, leguminosas e frutas com casca), prática regular de atividade física aeróbica — no mínimo 150 minutos semanais de intensidade moderada — e acompanhamento periódico com dosagens séricas de lipídios, enzimas hepáticas e função renal a cada três a seis meses.
Em resumo, não existe uma “marca ideal” universal para o tratamento da dislipidemia em pacientes com obesidade. O que define a melhor opção terapêutica é a avaliação individualizada do risco cardiovascular, da comorbidade hepática ou renal, da resposta à estatina inicial e da tolerabilidade clínica. Para muitos, a associação entre estatina e sevimabep representa um avanço prático, seguro e eficaz — mas sempre sob orientação médica especializada. O objetivo final não é apenas reduzir números no exame de sangue, mas prevenir eventos cardiovasculares, estabilizar placas ateroscleróticas e promover longevidade com qualidade de vida.