Como restabelecer a menstruação em mulheres com síndrome das ovárias policísticas e baixo peso
As mulheres com síndrome das ovárias policísticas (SOP) e baixo peso enfrentam um desafio clínico particular: a amenorreia secundária — ou seja, a ausência de menstruação por pelo menos três ciclos co
As mulheres com síndrome das ovárias policísticas (SOP) e baixo peso enfrentam um desafio clínico particular: a amenorreia secundária — ou seja, a ausência de menstruação por pelo menos três ciclos consecutivos — pode ocorrer mesmo na ausência de sobrepeso ou obesidade. Diferentemente do padrão mais comum, em que a SOP está associada à resistência à insulina e ao excesso de androgênios ligado à adiposidade, nesses casos a disfunção menstrual resulta principalmente de um distúrbio no eixo hipotálamo-hipófise-ovário (HHAO), frequentemente exacerbado por déficit energético crônico, restrição alimentar excessiva, exercício físico intenso ou estresse psicológico.
O diagnóstico exige uma avaliação cuidadosa para excluir outras causas de amenorreia, como hipotireoidismo, hiperprolactinemia, insuficiência ovariana precoce ou alterações anatômicas. Exames laboratoriais essenciais incluem dosagens séricas de FSH, LH, estradiol, prolactina, TSH, hormônio luteinizante (LH), testosterona total e livre, além de avaliação da reserva ovariana (AMH). A ultrassonografia pélvica pode revelar ovários com aspecto policístico, mas esse achado isolado não confirma o diagnóstico — é necessário correlacioná-lo com os critérios clínicos e bioquímicos.
O tratamento deve ser individualizado e centrado na restauração do equilíbrio energético. O primeiro passo é a reavaliação nutricional com acompanhamento de nutricionista especializado em distúrbios endócrinos e metabólicos, visando à normalização do índice de massa corporal (IMC) dentro da faixa saudável — sem imposição de ganho de peso excessivo, mas sim de adequação calórica e macronutrientes essenciais, especialmente gorduras saudáveis e carboidratos complexos. A redução significativa da intensidade ou volume do exercício físico, quando excessivo, também é fundamental.
Em muitos casos, a recuperação espontânea da menstruação ocorre após ajustes comportamentais e nutricionais, geralmente em até seis meses. Caso isso não aconteça, pode-se considerar terapia hormonal de indução — como progestagênios cíclicos (por exemplo, medroxiprogesterona acetato por 10 dias/mês) — para desencadear sangramento de retirada e proteger o endométrio. A contracepção hormonal combinada não é indicada como primeira linha nessa população, pois pode mascarar a recuperação fisiológica do eixo HHAO e não aborda a causa subjacente.
A abordagem multidisciplinar — envolvendo ginecologista, endocrinologista, nutricionista e, quando necessário, psicólogo — é essencial para garantir não apenas a retomada da menstruação, mas também a saúde reprodutiva, óssea e metabólica de longo prazo.