É preocupante ter níveis elevados de AST e ALT?
Um aumento dos níveis de AST (aspartato aminotransferase, também conhecida como TGO – transaminase glutâmico-oxalacética) e ALT (alanina aminotransferase, ou TGP – transaminase glutâmico-pirúvica) no sangue é um achado laboratorial comum e merece atenção clínica, mas não deve, por si só, causar pânico. Essas enzimas são predominantemente encontradas no fígado, embora a AST também esteja presente em músculo esquelético, coração e rins. Quando as células hepáticas sofrem lesão ou estresse — por exemplo, devido a hepatite viral, esteatose hepática (fígado gorduroso), consumo excessivo de álcool, medicamentos hepatotóxicos, doenças autoimunes ou obstrução biliar — há liberação dessas enzimas para a circulação, elevando seus valores séricos.
O grau de elevação oferece pistas importantes: elevações leves (até 2–3 vezes o limite superior da normalidade) são frequentemente associadas a condições reversíveis, como esteatose hepática não alcoólica ou uso moderado de certos fármacos; já elevações marcadas (acima de 5–10 vezes o valor normal) exigem investigação mais urgente, podendo indicar hepatite aguda, isquemia hepática, necrose maciça ou toxicidade grave. É fundamental lembrar que os níveis isolados de AST e ALT não diagnosticam uma doença específica — eles são marcadores de lesão hepatocelular, não de função hepática. Para avaliar a capacidade funcional do fígado, devem-se analisar outros parâmetros, como bilirrubinas, albumina, tempo de protrombina (ou INR) e frações proteicas.
Além disso, a relação AST/ALT pode orientar o diagnóstico diferencial: uma razão >1, especialmente se ≥2, é sugestiva de doença hepática alcoólica ou cirrose avançada; já uma razão <1 é mais comum na hepatite viral ou na esteatose hepática não alcoólica. Outros exames complementares — como ultrassonografia abdominal, sorologias virais (HBV, HCV), testes autoimunes (anti-FAN, anti-LKM, IgG), ferritina e glicemia de jejum — são essenciais para identificar a causa subjacente.
Portanto, sim: valores elevados de TGO e TGP “dão trabalho”, mas não significam, necessariamente, uma doença grave ou irreversível. O passo mais importante é consultar um médico especialista em doenças digestivas ou hepatologia para avaliação integrada — incluindo história clínica detalhada, exame físico e planejamento diagnóstico personalizado. Intervenções precoces, como modificação de estilo de vida (redução de peso, abstinência alcoólica, controle metabólico), muitas vezes revertam a lesão hepática inicial e previnem complicações futuras.