A alcaçuz prejudica os rins?
O alcaçuz (Glycyrrhiza glabra) é uma planta medicinal tradicionalmente utilizada em diversas culturas, especialmente na medicina tradicional chinesa, por suas propriedades anti-inflamatórias, expector
O alcaçuz (Glycyrrhiza glabra) é uma planta medicinal tradicionalmente utilizada em diversas culturas, especialmente na medicina tradicional chinesa, por suas propriedades anti-inflamatórias, expectorantes e protetoras da mucosa gastrointestinal. No entanto, seu principal componente bioativo — a glicirrizina — pode exercer efeitos sistêmicos significativos quando consumido em doses elevadas ou por períodos prolongados.
Em relação à função renal, o alcaçuz não causa lesão direta ao tecido renal em indivíduos saudáveis e com uso moderado. Contudo, a glicirrizina inibe a enzima 11β-hidroxiesteroide desidrogenase tipo 2 (11β-HSD2), responsável pela conversão do cortisol em cortisona no túbulo renal distal. Essa inibição leva ao acúmulo funcional de cortisol, que passa a se ligar aos receptores de mineralocorticoide, mimetizando os efeitos da aldosterona. O resultado é retenção de sódio e água, perda urinária de potássio e, consequentemente, hipocalemia, hipertensão arterial e edema — alterações que sobrecarregam o sistema cardiovascular e renal, podendo precipitar disfunção renal em pacientes com doença renal pré-existente ou fatores de risco como insuficiência cardíaca, cirrose ou diabetes mellitus.
Estudos clínicos e relatos de caso associam o consumo crônico de produtos contendo alcaçuz (como doces, chás ou suplementos) a síndrome de pseudoaldosteronismo, caracterizada por hipocalemia grave, alcalose metabólica hipoclorêmica e insuficiência renal funcional reversível após a interrupção do agente. Pacientes idosos e aqueles com redução da taxa de filtração glomerular (TFG) apresentam maior susceptibilidade a esses efeitos adversos devido à menor capacidade de depuração da glicirrizina e seus metabólitos.
Portanto, embora o alcaçuz não seja nefrotóxico em si, seu uso inadequado representa um risco indireto para a saúde renal, particularmente em populações vulneráveis. Recomenda-se evitar ingestão diária superior a 100 mg de glicirrizina por mais de duas semanas consecutivas e orientar rigorosamente pacientes com doença renal crônica, hipertensão não controlada ou distúrbios eletrolíticos quanto aos riscos associados. A supervisão médica é essencial antes da incorporação de preparações à base de alcaçuz em regimes terapêuticos prolongados.