O que comer na fase descompensada da cirrose hepática?
A cirrose hepática descompensada representa uma fase avançada da doença hepática crônica, na qual o fígado perde sua capacidade funcional de forma irreversível e surge uma série de complicações sistêm
A cirrose hepática descompensada representa uma fase avançada da doença hepática crônica, na qual o fígado perde sua capacidade funcional de forma irreversível e surge uma série de complicações sistêmicas — como ascite, encefalopatia hepática, varizes esofágicas e insuficiência renal hepatorenal. Nessa etapa, a nutrição assume um papel terapêutico fundamental: não apenas para preservar a massa muscular e evitar a desnutrição, mas também para reduzir o risco de exacerbação das complicações.
O manejo dietético deve ser individualizado, mas há princípios gerais amplamente recomendados pela Sociedade Brasileira de Hepatologia e pelas diretrizes da European Association for the Study of the Liver (EASL). A ingestão proteica deve ser mantida em níveis adequados — geralmente entre 1,2 e 1,5 g/kg/dia — mesmo em pacientes com encefalopatia leve, pois restrições excessivas favorecem a sarcopenia e pioram o prognóstico. Em casos de encefalopatia grave, pode-se considerar uma redução temporária sob supervisão médica rigorosa, com substituição parcial por proteínas vegetais ou suplementos à base de aminoácidos de cadeia ramificada (BCAA).
O controle do sódio é essencial, especialmente na presença de ascite ou edema. Recomenda-se ingestão limitada a 2.000 mg/dia (equivalente a cerca de 5 g de sal de cozinha), evitando alimentos processados, embutidos, molhos prontos, queijos amarelos e conservas. A hidratação deve ser orientada conforme o estado clínico: em pacientes com hiponatremia ou síndrome de retenção de água livre, pode ser necessário restringir líquidos a menos de 1.500 mL/dia.
É fundamental priorizar carboidratos complexos de baixo índice glicêmico, distribuídos em seis pequenas refeições ao longo do dia, para garantir fornecimento contínuo de energia e prevenir o catabolismo proteico. O álcool deve ser abolido completamente, assim como suplementos hepatotóxicos, ervas medicinais não validadas e medicamentos sem prescrição médica — inclusive analgésicos como paracetamol em doses elevadas.
A avaliação nutricional periódica por nutricionista especializado em doenças hepáticas é parte integrante do acompanhamento multidisciplinar. Alterações no estado nutricional — como perda de peso involuntária, redução da circunferência braquial ou queda na albumina sérica — devem acionar revisão imediata do plano alimentar e investigação de causas subjacentes, como má absorção, infecções ou progressão da doença.