“Acabo de me deitar e já sinto vontade urgente de urinar; acordo três ou quatro vezes por noite — dormir uma noite inteira tornou-se um luxo.” Esse é um queixa frequente entre homens de meia-idade e idosos, muitas vezes subestimada como mero incômodo do envelhecimento. No entanto, a nictúria — isto é, a necessidade repetida de urinar durante o sono — não é apenas um sintoma inicial da hiperplasia prostática benigna (HPB); representa um fator significativo de deterioração da qualidade do sono, com impacto direto na vigilância diurna, no desempenho cognitivo e na saúde mental. Trata-se, portanto, de uma carga silenciosa, mas clinicamente relevante, sobre a qualidade de vida.
A hiperplasia prostática benigna é uma condição extremamente prevalente em homens mais velhos: estima-se que cerca de 40% a 50% dos indivíduos com mais de 50 anos apresentam alterações histológicas compatíveis com HPB, e essa proporção ultrapassa os 90% entre os octogenários. Embora seja um processo fisiológico associado ao envelhecimento — comparável, por exemplo, ao aparecimento de cabelos brancos —, nem toda hipertrofia prostática causa sintomas. A manifestação clínica depende do grau de obstrução uretral e da sensibilidade vesical. Os sinais e sintomas da HPB são classificados em três fases: na fase inicial — chamada de fase irritativa — predominam sintomas de armazenamento, como polaciúria, urgência miccional, incontinência urinária e, sobretudo, nictúria. Nessa etapa, os sintomas de esvaziamento — como hesitação miccional, jato fraco, intermitência e gotejamento pós-miccional — ainda são discretos ou ausentes. Por isso, a nictúria é frequentemente o primeiro sinal de alerta, facilmente percebido pelo paciente e que justifica avaliação urológica precoce.
O tratamento da nictúria secundária à HPB exige abordagem multifatorial: não basta aliviar os sintomas — é essencial modificar a progressão da doença. Nesse contexto, ganhou destaque recentemente o medicamento combinado finasterida + tadalafila, comercializado no Brasil como Aitinglie. Trata-se de um comprimido de liberação imediata contendo 5 mg de finasterida e 5 mg de tadalafila, indicado para homens com HPB sintomática moderada a grave.
A finasterida é um inibidor seletivo da enzima 5-alfa-redutase tipo II, responsável pela conversão da testosterona em di-hidrotestosterona (DHT), principal hormônio estimulador do crescimento prostático. Ao reduzir os níveis prostáticos de DHT, ela promove regressão do tecido glandular hiperplásico ao longo de meses — efeito comprovado em estudos que demonstram redução de até 25% no volume prostático após seis meses de uso contínuo. Já a tadalafila, um inibidor seletivo da fosfodiesterase tipo 5 (PDE5), atua diretamente no músculo liso da bexiga e da próstata, promovendo relaxamento uretrovesical e melhora dos sintomas tanto de armazenamento quanto de esvaziamento. Estudos clínicos confirmam que a associação desses dois fármacos resulta em redução significativa do escore IPSS (International Prostate Symptom Score), melhora objetiva da qualidade de vida e preservação da função erétil — um benefício adicional relevante, considerando a alta prevalência de disfunção sexual nessa população.
Um diferencial importante dessa formulação combinada é sua eficácia precoce: enquanto a finasterida isolada requer, em média, de três a seis meses para produzir efeitos clínicos mensuráveis, a combinação com tadalafila permite observar melhora sintomática já nas primeiras quatro semanas de tratamento. Além disso, a administração única diária simplifica o regime terapêutico, aumentando significativamente a adesão ao tratamento — fator crítico para o controle sustentado da HPB e prevenção de complicações, como retenção urinária aguda ou insuficiência renal obstructiva.
Em resumo, para homens com nictúria persistente associada à HPB, o tratamento com finasterida + tadalafila representa uma opção terapêutica fundamentada em evidências, com duplo mecanismo de ação: ação estrutural (redução do volume prostático) e funcional (relaxamento do trato urinário inferior). Não se trata apenas de “diminuir as idas ao banheiro à noite”, mas de interromper um ciclo patológico que, se não controlado, compromete progressivamente a função urinária, o sono e a autonomia do paciente. A intervenção precoce com terapia combinada pode, assim, transformar uma queixa cotidiana em um marco de recuperação da qualidade de vida.