Por que os olhos ficam ressecados após a cirurgia de catarata?
Após a cirurgia de catarata, é bastante comum que os pacientes relatem sensação de olho seco — uma queixa que pode surgir logo nas primeiras semanas pós-operatórias e, em alguns casos, persistir por m
Após a cirurgia de catarata, é bastante comum que os pacientes relatem sensação de olho seco — uma queixa que pode surgir logo nas primeiras semanas pós-operatórias e, em alguns casos, persistir por meses. Esse desconforto não é um sinal de complicações graves, mas sim uma consequência fisiológica previsível do procedimento.
O principal fator envolvido é a alteração na integridade da superfície ocular. Durante a cirurgia, mesmo com técnicas minimamente invasivas como a facoemulsificação, há necessidade de incisões corneanas e manipulação intraocular, o que pode danificar temporariamente as terminações nervosas sensitivas da córnea — especialmente as fibras do nervo trigêmeo responsáveis pela regulação reflexa da produção lacrimal. Essa disfunção neurotrófica leva à diminuição da secreção lacrimal e à instabilidade do filme lacrimal.
Além disso, o uso rotineiro de colírios pós-operatórios — sobretudo aqueles contendo corticosteroides ou antibióticos — pode contribuir para a toxicidade epitelial e agravar a disfunção das glândulas meibomianas, reduzindo a camada lipídica do filme lacrimal e acelerando sua evaporação.
É importante destacar que pacientes com histórico prévio de síndrome do olho seco, idade avançada, menopausa, doenças autoimunes (como síndrome de Sjögren) ou uso crônico de medicações sistêmicas (ex.: antidepressivos, anti-hipertensivos) apresentam risco aumentado para essa manifestação pós-cirúrgica.
A abordagem terapêutica é individualizada e baseada na gravidade dos sintomas: desde lágrimas artificiais hipotônicas e conservantes livres até tratamentos mais avançados, como bloqueio dos pontos lacrimais, anti-inflamatórios tópicos (ciclosporina ou lifitegrast) ou terapia com luz pulsada intensa (IPL), quando há componente meibomiano significativo. A maioria dos casos melhora espontaneamente dentro de 3 a 6 meses, à medida que ocorre a re-innervação corneana e a recuperação funcional das glândulas lacrimais acessórias.