O que fazer quando a glicemia não diminui apesar do tratamento?
Quando os níveis glicêmicos persistem elevados apesar do tratamento instituído — fenômeno conhecido clinicamente como hiperglicemia refratária — é essencial reavaliar de forma sistemática as possíveis
Quando os níveis glicêmicos persistem elevados apesar do tratamento instituído — fenômeno conhecido clinicamente como hiperglicemia refratária — é essencial reavaliar de forma sistemática as possíveis causas subjacentes. A primeira etapa consiste em verificar a adesão terapêutica: o paciente está realmente utilizando os medicamentos prescritos conforme orientação, nas doses e horários corretos? Erros na administração de insulina — como injeções inadequadas, uso de seringas ou canetas com falhas técnicas, ou armazenamento incorreto do fármaco — são causas frequentes e facilmente corrigíveis.
Além disso, é fundamental investigar fatores clínicos concomitantes. Infecções agudas (como pneumonia, pielonefrite ou celulite), síndromes inflamatórias, estresse fisiológico (pós-cirúrgico, traumas ou AVC), uso concomitante de corticosteroides sistêmicos ou betabloqueadores não seletivos podem elevar significativamente a glicemia por meio de mecanismos contrarregulatórios. Alterações hormonais, como acromegalia, síndrome de Cushing ou feocromocitoma, embora menos comuns, devem ser consideradas em casos atípicos ou de início recente de descontrole glicêmico.
O exame físico detalhado pode revelar sinais sugestivos: ganho ponderal excessivo, estrias violáceas, hirsutismo, pressão arterial elevada ou sinais de neuropatia autonômica (como gastroparesia diabética) — esta última capaz de alterar a absorção gástrica e, consequentemente, a resposta glicêmica aos carboidratos ingeridos. Exames laboratoriais complementares, como hemoglobina glicada (HbA1c), perfil lipídico, função renal e hepática, além de dosagens hormonais específicas quando indicado, ajudam a delinear o quadro integral.
A abordagem terapêutica deve ser personalizada: ajuste da dose e esquema de insulina (incluindo transição para regimes mais intensivos, como infusão contínua subcutânea), revisão de medicações concomitantes que interfiram no metabolismo da glicose, intervenção nutricional especializada com contagem de carboidratos e educação terapêutica em diabetes são pilares fundamentais. Em casos complexos, a avaliação multidisciplinar envolvendo endocrinologista, nutricionista, enfermeiro especializado e psicólogo é recomendada para otimizar o controle metabólico e prevenir complicações a longo prazo.