Risco negligenciado: infecção por HPV em homens e uma nova abordagem integrada de prevenção e tratamento para ambos os sexos
Um risco frequentemente subestimado na saúde pública é a infecção pelo papilomavírus humano (HPV) em homens. Embora amplamente reconhecido como um fator causal de câncer cervical em mulheres, o HPV ta
Um risco frequentemente subestimado na saúde pública é a infecção pelo papilomavírus humano (HPV) em homens. Embora amplamente reconhecido como um fator causal de câncer cervical em mulheres, o HPV também está associado a diversos tipos de neoplasias em homens — incluindo câncer de pênis, ânus e orofaringe — além de lesões genitais benignas, como verrugas anogenitais. Estudos epidemiológicos indicam que a prevalência de infecção por HPV em homens adultos é comparável à observada em mulheres, com taxas que variam entre 20% e 45%, dependendo da população estudada e do método diagnóstico utilizado.
A falta de rastreamento sistemático para HPV em homens contribui significativamente para a subnotificação e ao atraso no diagnóstico precoce. Diferentemente do exame citopatológico (Papanicolau) em mulheres, não há um teste de rotina validado e amplamente implementado para detecção assintomática do vírus em homens. Isso reforça a importância da prevenção primária, especialmente por meio da vacinação. As vacinas contra o HPV disponíveis atualmente — quadrivalente, bivalente e nonavalente — são eficazes na prevenção de infecções por tipos virais de alto risco (como os tipos 16 e 18, responsáveis pela maioria dos cânceres associados ao HPV) e de baixo risco (como os tipos 6 e 11, causadores de verrugas genitais).
A imunização masculina não apenas protege o indivíduo vacinado, mas também reduz a transmissão comunitária do vírus, atuando como uma estratégia essencial de saúde coletiva. Programas nacionais que incorporaram a vacinação de meninos — como os adotados em países como Austrália, Reino Unido e Canadá — demonstraram quedas expressivas na incidência de verrugas genitais em ambos os sexos e redução na prevalência de infecções por HPV de alto risco em populações jovens. No Brasil, embora a vacina esteja disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) para meninas e meninos de 9 a 14 anos, a cobertura vacinal ainda enfrenta desafios logísticos e de adesão.
A abordagem integrada — que envolve vacinação universal, educação em saúde sexual, uso consistente de preservativo e acompanhamento clínico de lesões suspeitas — representa um novo paradigma na prevenção do HPV. Trata-se de uma via compartilhada: a proteção de homens e mulheres não é uma questão de escolha entre grupos, mas uma necessidade conjunta para interromper a cadeia de transmissão e reduzir a carga global de doenças associadas ao vírus.