A enxaqueca é uma doença neurológica crônica, de caráter paroxístico e origem neurovascular, caracterizada por crises recorrentes de cefaleia moderada a intensa, com padrão pulsátil, frequentemente associadas a náuseas, vômitos, fotofobia e fonofobia[1]. Na Medicina Tradicional Chinesa (MTC), essa condição é enquadrada nos conceitos de “vento cerebral”, “vento da cabeça” e “cefaleia unilateral ou bilateral”, cuja etiopatogenia envolve tanto fatores externos — como invasão de vento, frio, umidade e calor — quanto internos, notadamente desequilíbrios dos Qi e Xue (energia vital e sangue), deficiência de sangue, estase sanguínea e hiperatividade do fígado-Yang.
O Clássico Interno do Imperador Amarelo (Huangdi Neijing) foi o primeiro texto médico a nomear formalmente a cefaleia unilateral, atribuindo sua ocorrência a duas grandes vertentes: agressões externas e lesões internas. Posteriormente, o tratadista Qing Wu Qian, em seu Compendium de Medicina Imperial (Yizong Jinjian), sistematizou a diferenciação diagnóstica ao afirmar que “a cefaleia pode resultar de fleuma-calor, vento, umidade, deficiência de Qi ou deficiência de Xue; quando localizada à direita, predomina o envolvimento do Qi e do fleuma-calor; quando à esquerda, há maior participação da deficiência de sangue e da ação patogênica do vento”. Essa abordagem fundamenta estratégias terapêuticas distintas conforme a fase clínica: expulsão do vento e resolução do exterior, acalmar o fígado e suprimir o vento, ativar a circulação sanguínea e dissipar estase, além de tonificar o Qi e nutrir o Xue[1].
Uma revisão sistemática da literatura médica chinesa identificou 15 pares de ervas (denominados “dui yao”) com evidência consistente no tratamento da enxaqueca. Entre eles, destacam-se três combinações particularmente relevantes: Chuanxiong–Danggui (Ligusticum chuanxiong + Angelica sinensis), Bai Zhi–Chuanxiong (Angelica dahurica + Ligusticum chuanxiong) e Tian Ma–Chuanxiong (Gastrodia elata + Ligusticum chuanxiong)[1]. Esses pares são amplamente empregados tanto em fórmulas clássicas quanto em medicamentos fitoterápicos modernos registrados pela Administração Nacional de Produtos Médicos da China.
Um exemplo clínico relevante é o Shunaoxin Dìwán> (comprimidos sublinguais Shunaoxin), aprovado pela autoridade regulatória chinesa para o tratamento da enxaqueca associada à síndrome de deficiência de sangue e estase sanguínea. Sua fórmula baseia-se precisamente no par Chuanxiong–Danggui: o Chuanxiong, de natureza acrida e quente, possui propriedade ascendente e mobilizadora, atuando diretamente nos meridianos do cérebro e promovendo a circulação do Xue e do Qi; já o Danggui, de sabor doce e acrido e natureza quente, é reconhecido como “o rei dos medicamentos sanguíneos”, com ações tonificantes, ativadoras da microcirculação e analgésicas. Em conjunto, essas duas plantas exercem efeito sinérgico na regulação do Qi, ativação da circulação sanguínea e alívio da dor[2,3].
Um estudo multicêntrico, randomizado, duplo-cego e controlado com placebo confirmou a eficácia e segurança do Shunaoxin Dìwán no tratamento da enxaqueca com padrão de deficiência de sangue e estase. Os resultados demonstraram superioridade significativa frente ao grupo-controle não apenas na redução da intensidade e duração das crises, mas também na melhora global dos sinais e sintomas da síndrome MTC — incluindo frequência das crises, tontura, insônia e sinais objetivos como cianose de lábios e unhas[3]. Nenhum evento adverso grave foi relatado durante o ensaio, reforçando seu perfil de segurança clínica.
Estudos de farmacologia de rede indicam que o par Chuanxiong–Danggui contém 56 compostos bioativos capazes de modular até 187 alvos moleculares relacionados à enxaqueca. Seus mecanismos de ação incluem a modulação das vias inflamatórias TNF/IL-17, a regulação da via eNOS/óxido nítrico — com impacto na vasodilatação cerebral e na excitabilidade neuronal — além de efeitos neuroprotetores e analgésicos comprovados experimentalmente[1].
É fundamental ressaltar que a prescrição de fitoterápicos para enxaqueca deve ser sempre precedida de avaliação individualizada por profissional qualificado em Medicina Tradicional Chinesa, com diagnóstico diferencial rigoroso baseado na análise dos sinais e sintomas, do pulso e da língua. A automedicação ou alteração não supervisionada de doses pode comprometer a eficácia terapêutica e aumentar o risco de interações. Paralelamente ao tratamento fitoterápico, recomenda-se a adoção de medidas não farmacológicas essenciais: proteção da cabeça contra correntes de ar e mudanças térmicas bruscas, prática regular de técnicas de regulação emocional e acompanhamento psicológico em casos de ansiedade ou depressão comorbidades — fatores bem estabelecidos como gatilhos e agravantes da enxaqueca.