Por que pessoas que sentem frio com facilidade têm maior tendência a desenvolver quadros de “fogo interno”?
É comum ouvir pacientes se queixarem de sensação constante de frio, especialmente nos membros distais, ao mesmo tempo em que apresentam sinais clínicos de “calor excessivo” — como úlceras aftosas reco
É comum ouvir pacientes se queixarem de sensação constante de frio, especialmente nos membros distais, ao mesmo tempo em que apresentam sinais clínicos de “calor excessivo” — como úlceras aftosas recorrentes, gengivite, faringite, acne ou constipação. Essa aparente contradição, frequentemente descrita na medicina tradicional chinesa como “frio no corpo e calor na cabeça”, tem explicações fisiopatológicas plausíveis dentro da medicina ocidental.
O fenômeno está frequentemente associado a distúrbios da regulação térmica periférica e à redistribuição anormal do fluxo sanguíneo. Indivíduos com hipotireoidismo leve não diagnosticado, síndrome de Raynaud, disautonomia autonômica ou baixa massa muscular podem apresentar vasoconstrição periférica exacerbada, resultando em sensação subjetiva de frio nas mãos e pés. Paralelamente, essa vasoconstrição induz uma compensação central: o corpo redireciona o fluxo sanguíneo para órgãos vitais e áreas superiores do tronco, aumentando a perfusão cutânea facial, oral e faríngea — o que favorece inflamação local, hiperemia mucosa e manifestações clínicas semelhantes ao “calor interno”.
Fatores nutricionais também desempenham papel-chave. Deficiências de ferro, vitamina B12 ou ácido fólico comprometem a oxigenação tecidual e a termogênese mitocondrial, contribuindo para a sensação de frio. Ao mesmo tempo, dietas ricas em alimentos ultraprocessados, açúcares refinados e gorduras saturadas promovem um estado pró-inflamatório sistêmico, que pode se manifestar como sintomas inflamatórios focais — como estomatites, dermatites ou disfunções gastrointestinais — interpretados erroneamente como “acúmulo de calor”.
Além disso, o estresse crônico ativa o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA), elevando os níveis de cortisol e adrenalina. Isso provoca vasoconstrição periférica (frio) e, simultaneamente, estimula a liberação de citocinas pró-inflamatórias, predispondo a reações inflamatórias locais — particularmente em mucosas altamente vascularizadas, como as do trato digestório superior e oral.
O diagnóstico adequado exige avaliação integrada: dosagem sérica de TSH, ferritina, vitamina B12 e hemograma completo; teste de função autonômica, quando indicado; e análise cuidadosa do padrão alimentar e do perfil de estresse. O manejo deve ser personalizado, abrangendo correção de deficiências nutricionais, reeducação alimentar anti-inflamatória, exercícios físicos regulares para melhora da circulação periférica e, se necessário, tratamento específico para distúrbios endócrinos ou neurológicos subjacentes.