Riscos de manter o DIU após os 79 anos
Em mulheres idosas, especialmente após os 79 anos, a manutenção de um dispositivo intrauterino (DIU) no útero sem remoção programada pode representar riscos clínicos significativos. Com o avanço da id
Em mulheres idosas, especialmente após os 79 anos, a manutenção de um dispositivo intrauterino (DIU) no útero sem remoção programada pode representar riscos clínicos significativos. Com o avanço da idade, ocorrem alterações fisiológicas importantes no trato genital feminino: atrofia endometrial e cervical, redução da vascularização uterina, diminuição da elasticidade do miométrio e ressecamento vaginal — todas consequências da deficiência estrogênica pós-menopausa.
Essas mudanças aumentam substancialmente o risco de complicações relacionadas ao DIU permanente. Entre elas destacam-se a perfuração uterina espontânea — favorecida pela fragilidade tecidual —, a migração do dispositivo para cavidades adjacentes (como a cavidade peritoneal), infecções crônicas do endométrio ou das trompas (endometrite ou salpingite), e sangramento uterino anormal, que pode mascarar ou coexistir com patologias graves, como hiperplasia endometrial ou câncer de endométrio.
Além disso, a identificação e a remoção segura do DIU tornam-se tecnicamente mais desafiadoras em pacientes idosas: o colo uterino pode estar retraído, calcificado ou estenótico, dificultando o acesso; o corpo uterino pode estar anteverdido ou fixo, e a visualização ecográfica do dispositivo pode ser comprometida por calcificações pélvicas ou obesidade associada. Em alguns casos, a retirada exige abordagem cirúrgica (histeroscopia ou laparoscopia), com risco aumentado de complicações anestésicas e cirúrgicas nessa faixa etária.
A Sociedade Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (SOGO) recomenda fortemente a avaliação individualizada de toda mulher com DIU após a menopausa confirmada (ausência de menstruação por 12 meses consecutivos), com indicação de remoção eletiva antes dos 65 anos — ou, no máximo, até os 70 anos —, desde que não haja contraindicações absolutas. Após os 75 anos, a manutenção do DIU deve ser considerada excepcional e justificada apenas mediante avaliação multidisciplinar rigorosa, incluindo ginecologia, geriatria e, se necessário, radiologia intervencionista.
Portanto, em uma paciente de 79 anos com DIU ainda em uso, a conduta preconizada é a investigação imediata com ultrassonografia transvaginal (ou transabdominal, conforme viabilidade técnica), avaliação do estado do colo uterino e do endométrio, e planejamento especializado para sua retirada segura — nunca a simples observação expectante. A negligência nesse cenário não é inócua: representa exposição desnecessária a eventos adversos potencialmente graves, com impacto direto na qualidade de vida e na sobrevida dessa população vulnerável.