Pacientes com diabetes sentem fome constante: é um sinal positivo ou preocupante?
É comum que pessoas com diabetes mellitus relatem sensação frequente de fome intensa, conhecida clinicamente como polifagia. Embora a fome seja uma resposta fisiológica normal ao esvaziamento gástrico
É comum que pessoas com diabetes mellitus relatem sensação frequente de fome intensa, conhecida clinicamente como polifagia. Embora a fome seja uma resposta fisiológica normal ao esvaziamento gástrico ou à queda dos níveis de glicose sanguínea, sua ocorrência persistente e desproporcional em pacientes diabéticos geralmente indica um distúrbio no metabolismo da glicose — e não deve ser interpretada como um sinal positivo.
A polifagia no diabetes está diretamente relacionada à incapacidade das células de absorver adequadamente a glicose circulante, mesmo na presença de insulina (no caso do diabetes tipo 2) ou à deficiência absoluta desse hormônio (no diabetes tipo 1). Como resultado, o organismo interpreta erroneamente a situação como um estado de “falta de energia”, estimulando centros hipotalâmicos da fome e liberando hormônios orexígenos, como o grelin. Ao mesmo tempo, há acúmulo excessivo de glicose no sangue (hiperglicemia), sem que ela consiga entrar nas células musculares, adiposas ou hepáticas para gerar ATP.
Portanto, essa fome constante não é benéfica: é um sinal clínico de descompensação metabólica. Se não for avaliada e tratada adequadamente, pode contribuir para ciclos viciosos — como ingestão excessiva de carboidratos seguida de pico glicêmico, maior resistência à insulina e progressão da doença. Em idosos ou pacientes com comorbidades cardiovasculares, a polifagia não reconhecida também pode mascarar ou agravar quadros de hipoglicemia reativa ou disfunção autonômica.
O diagnóstico diferencial é essencial. Outras condições — como hipotireoidismo, síndrome das apneias obstrutivas do sono, depressão atípica ou uso de certos medicamentos (ex.: corticoides, antipsicóticos de segunda geração) — também podem causar aumento do apetite. Assim, todo paciente com diabetes que relata fome persistente deve ser submetido a avaliação abrangente: glicemia de jejum, hemoglobina glicada (HbA1c), perfil lipídico, função tireoidiana e, quando indicado, testes de tolerância à glicose ou dosagem de insulina e peptídeo C.
O manejo envolve ajuste terapêutico individualizado — seja pela otimização do regime insulinoterápico, introdução de agentes hipoglicemiantes com efeito sobre o apetite (como agonistas do receptor GLP-1), seja por intervenções nutricionais estruturadas, com ênfase em fibras solúveis, proteínas de alta qualidade e distribuição equilibrada de carboidratos ao longo do dia. A educação em diabetes, com foco na autoobservação de sinais de descompensação, permanece um pilar fundamental para prevenir complicações agudas e crônicas.