Dentes que se deterioram constantemente: qual será a causa?
É comum que pacientes cheguem ao consultório odontológico com uma queixa recorrente: “Meus dentes sempre apodrecem, mas não sei por quê”. Essa situação, embora frustrante, tem explicações clínicas bem
É comum que pacientes cheguem ao consultório odontológico com uma queixa recorrente: “Meus dentes sempre apodrecem, mas não sei por quê”. Essa situação, embora frustrante, tem explicações clínicas bem estabelecidas — e raramente se deve a uma única causa. Na verdade, a cárie dentária é uma doença multifatorial, resultante da interação complexa entre fatores biológicos, comportamentais, ambientais e socioeconômicos.
Um dos principais determinantes é a exposição frequente a carboidratos fermentáveis — especialmente açúcares simples como a sacarose — que alimentam bactérias cariogênicas, como o Streptococcus mutans. Quando essas bactérias metabolizam os açúcares, produzem ácidos que desmineralizam o esmalte dentário. A frequência da ingestão de açúcar (mais do que a quantidade total consumida) é particularmente relevante: lanches contínuos ou o hábito de beber refrigerantes ao longo do dia mantêm o pH bucal em níveis ácidos por períodos prolongados, impedindo a remineralização natural.
Outros fatores contribuintes incluem a redução do fluxo salivar — seja por uso de medicamentos (como antidepressivos, anticolinérgicos ou diuréticos), síndrome de Sjögren ou radioterapia na região de cabeça e pescoço. A saliva exerce função protetora fundamental: tampona ácidos, limpa resíduos alimentares e fornece íons cálcio e fosfato para a reparação do esmalte. Sua diminuição aumenta significativamente o risco de cáries, especialmente em superfícies radiculares.
Também merecem atenção condições sistêmicas e genéticas. Alterações na composição mineral do esmalte (como hipomineralizações ou displasias esmaltiformes), histórico familiar de cáries precoces, deficiências nutricionais crônicas (ex.: vitamina D, cálcio ou fósforo) e até transtornos alimentares — como bulimia, com exposição repetida ao ácido gástrico — podem predispor à deterioração dentária acelerada.
O diagnóstico adequado exige avaliação individualizada: análise detalhada do histórico dietético, hábitos de higiene oral, uso de flúor (tópico e sistêmico), exame clínico minucioso e, quando indicado, testes complementares — como medição do fluxo salivar ou culturas bacterianas. O tratamento vai além da restauração das lesões: envolve estratégias preventivas personalizadas, educação em saúde bucal, controle rigoroso de fatores de risco e acompanhamento periódico com foco na manutenção da integridade estrutural dos dentes.