Alguns pacientes com diabetes têm ouvido falar em estratégias pouco convencionais para ajudar no controle glicêmico — como, por exemplo, jogar mahjong. Circulam até piadas nas redes sociais: “puxar um ‘leste’ baixa dois pontos de glicose; fazer uma ‘limpa’ elimina a necessidade de insulina”. Embora o jogo possa trazer benefícios reais, especialistas alertam: não há milagres no tabuleiro — e jogar sem orientação pode, na verdade, prejudicar o equilíbrio metabólico.
O movimento das mãos e o esforço mental têm efeito real?
Sim — mas de forma indireta e limitada. Durante uma partida de mahjong, os movimentos repetitivos de pegar, empurrar e embaralhar as peças estimulam a circulação periférica nas mãos e nos dedos. Para pessoas com neuropatia diabética — especialmente aquelas que já apresentam formigamento ou dormência nas extremidades — essa atividade leve funciona como uma espécie de automassagem neuromuscular, melhorando temporariamente o fluxo sanguíneo local. Além disso, o constante cálculo de pontuações, memorização de cartas e tomada de decisões rápidas ativam intensamente o córtex pré-frontal. Esse esforço cognitivo aumenta ligeiramente o gasto energético — cerca de 100–150 kcal por hora — contribuindo, ainda que modestamente, para o manejo do metabolismo da glicose.
Mas os riscos são reais — e muitas vezes subestimados
O principal perigo está na sedentariedade prolongada. Uma partida típica pode durar várias horas, com o jogador imóvel na mesma posição. Isso compromete a função da bomba musculoesquelética nas pernas, reduzindo significativamente a captação de glicose pelos músculos esqueléticos — um mecanismo essencial para a regulação glicêmica pós-prandial. A retenção urinária também é frequente: muitos adiam idas ao banheiro por “não querer interromper a sequência”, elevando a pressão intravesical e sobrecarregando os rins — órgão já vulnerável em pacientes com diabetes de longa data.
Outro fator crítico é a instabilidade emocional. A alternância entre euforia (ao vencer) e frustração intensa (ao sofrer um “ponto” inesperado) desencadeia picos agudos de adrenalina e cortisol. Estudos clínicos demonstram que esses estados de estresse agudo podem elevar a glicemia em até 60 mg/dL em poucos minutos, mesmo em pacientes bem controlados — um fenômeno conhecido como hiperglicemia de estresse, que agrava a resistência à insulina e sobrecarrega as células beta pancreáticas.
Regras práticas para jogar com segurança
Para quem deseja manter o mahjong como parte saudável da rotina, endocrinologistas e educadores em diabetes recomendam seguir três pilares: movimento programado, escolha consciente de alimentos e limitação estrita de tempo. É fundamental levantar-se a cada duas rodadas (cerca de 45–60 minutos) para realizar alongamentos leves dos membros inferiores, caminhar por 2–3 minutos ou simplesmente girar os tornozelos e mobilizar os ombros enquanto sentado. Na mesa, substitua amendoins, castanhas salgadas e refrigerantes por opções de baixo índice glicêmico — como pepino em palitos, tomate cereja ou cenoura crua — e priorize infusões sem açúcar, como chá verde ou camomila.
O monitoramento glicêmico deve ser integrado à experiência: deixe o glicosímetro visível ao lado do tabuleiro, como lembrete natural para checar os níveis antes, durante e após a partida — especialmente se houver sintomas de hipoglicemia ou hiperglicemia. Quanto à frequência, o ideal é limitar sessões a no máximo duas horas por vez e não ultrapassar três encontros semanais. Prefira ambientes bem iluminados e ventilados, evitando locais fechados com exposição à fumaça de cigarro — fator que potencializa a disfunção endotelial e o risco cardiovascular.
No fim das contas, o mahjong pode ser um recurso útil para estimular a cognição e promover leve atividade física — mas jamais substitui os pilares fundamentais do tratamento do diabetes: uso regular de medicação prescrita, alimentação equilibrada com controle de carboidratos, prática consistente de exercícios aeróbicos e resistidos, e acompanhamento periódico com equipe multidisciplinar. Antes de dar início à próxima partida, talvez valha mais a pena fazer cinco agachamentos profundos — afinal, o controle da glicemia começa com escolhas ativas, não com sorte no embaralhamento.