Qual é a diferença entre a espondilite sacroilíaca e a espondilite anquilosante?
A espondiloartrite axial é um grupo de doenças inflamatórias crônicas que afetam principalmente a coluna vertebral e as articulações sacroilíacas. Dentro desse espectro, duas condições frequentemente
A espondiloartrite axial é um grupo de doenças inflamatórias crônicas que afetam principalmente a coluna vertebral e as articulações sacroilíacas. Dentro desse espectro, duas condições frequentemente confundidas são a espondilite anquilosante (EA) e a espondiloartrite axial não radiográfica (SpA ax-nr), anteriormente denominada “artrite sacroilíaca isolada” ou “espondiloartrite axial precoce”. Embora compartilhem mecanismos patogênicos semelhantes — incluindo envolvimento do HLA-B27, inflamação entésica e padrão familiar —, diferenciam-se fundamentalmente pelo grau de dano estrutural visível em exames de imagem.
A espondilite anquilosante é caracterizada por alterações radiográficas definitivas nas articulações sacroilíacas, como esclerose, erosões, espiculas ósseas e, em estágios avançados, fusão completa (anquilose). Essas mudanças são evidentes em radiografias convencionais da pelve e constituem critério diagnóstico essencial segundo os critérios ASAS (Assessment of SpondyloArthritis international Society). Pacientes com EA frequentemente apresentam também sinais de espondilite — como esporões vertebrais, pontes ósseas e rigidez progressiva da coluna — além de manifestações extrararticulares, como uveíte anterior aguda, psoríase ou doença inflamatória intestinal.
Já a espondiloartrite axial não radiográfica refere-se a um estágio mais inicial da mesma doença inflamatória, em que há sintomas clínicos típicos — dor lombar inflamatória (início antes dos 45 anos, duração superior a três meses, piora com repouso e melhora com atividade física), rigidez matinal prolongada, resposta parcial ao tratamento com AINEs — mas sem alterações estruturais detectáveis em radiografias. Nesses casos, a ressonância magnética (RM) da pelve revela sinais ativos de inflamação, como edema ósseo (sinal de “cintilação”) nas articulações sacroilíacas, confirmando o diagnóstico. Importa destacar que a SpA ax-nr não é uma entidade distinta, mas sim um estágio evolutivo potencialmente progressivo: estudos de acompanhamento mostram que cerca de 10–20% dos pacientes desenvolvem alterações radiográficas compatíveis com EA ao longo de 2 a 5 anos.
O diagnóstico diferencial entre ambas depende, portanto, da integração criteriosa entre quadro clínico, exames laboratoriais (incluindo tipagem do HLA-B27) e, sobretudo, avaliação por imagem. Radiografia é o primeiro método de triagem, mas a RM é indispensável quando há suspeita clínica forte e radiografia normal. O manejo é semelhante em ambos os grupos — baseado em exercícios físicos supervisionados, uso racional de anti-inflamatórios não esteroidais e, nos casos refratários ou com progressão radiológica, emprego de inibidores do fator de necrose tumoral (como adalimumabe ou golimumabe) ou inibidores de IL-17 (como secukinumabe ou ixekizumabe).
Em resumo, a distinção entre espondilite anquilosante e espondiloartrite axial não radiográfica não representa uma dicotomia entre doenças distintas, mas sim um contínuo evolutivo da mesma entidade inflamatória. O reconhecimento precoce da SpA ax-nr permite intervenção terapêutica oportuna, com potencial impacto na modulação da progressão estrutural e na preservação da função física a longo prazo.