O romã, fruta ancestral cujos grãos rubros encantam os sentidos, está ganhando destaque na literatura médica como um aliado promissor no manejo do diabetes mellitus. Estudos recentes revelam que seus compostos bioativos não apenas não agravam a glicemia, mas exercem efeitos fisiológicos benéficos diretos sobre as principais complicações metabólicas e vasculares associadas à doença — transformando-a de simples fruta em um componente estratégico da dieta terapêutica.
Por que o romã surpreende na modulação glicêmica?
Apesar de seu sabor adocicado, o romã possui índice glicêmico (IG) inferior ao da maçã — cerca de 35 versus 40 — graças à presença abundante de taninos hidrolisáveis, especialmente punicalagina. Esses polifenóis atuam como moduladores da absorção intestinal de carboidratos: inibem enzimas como a α-glicosidase e retardam a liberação de glicose no sangue, evitando picos glicêmicos agudos após as refeições.
Além disso, o romã é uma das fontes vegetais mais ricas em antioxidantes, com capacidade antioxidante total (ORAC) até três vezes superior ao do chá verde. Essa potência neutraliza espécies reativas de oxigênio (EROs) que perpetuam o estresse oxidativo crônico — um dos pilares da inflamação sistêmica presente no diabetes tipo 2.
Evidências clínicas: proteção multissistêmica
1. Proteção cardiovascular: Ensaios clínicos randomizados demonstraram que o consumo diário de suco de romã (240 mL) por 3 meses reduz significativamente a espessura íntima-média carotídea e melhora a elasticidade arterial, graças à sua ação antiaterogênica e à indução da síntese endotelial de óxido nítrico.
2. Prevenção da retinopatia diabética: Compostos como a ellagitanina estabilizam as junções intercelulares dos capilares retinianos, reduzindo a permeabilidade vascular e a formação de microaneurismas — mecanismos centrais na progressão da retinopatia.
3. Nefroproteção: Metabolitos derivados do romã, como o ácido urolítico A, ativam vias de defesa celular renais (Nrf2/Keap1), diminuindo a expressão de TGF-β e fibronectina, e retardando a progressão da nefropatia diabética em modelos experimentais.
4. Neuroproteção periférica: Estudos pré-clínicos indicam que extratos de romã promovem a mielinização axonal e reduzem a apoptose neuronal, com efeitos positivos sobre a neuropatia periférica — particularmente nos distúrbios sensitivos e autonômicos.
5. Cicatrização tecidual acelerada: O romã estimula a proliferação de queratinócitos e fibroblastos, além de modular a expressão de fatores de crescimento como o VEGF e o FGF-2, melhorando a reepitelização em feridas crônicas de pacientes diabéticos.
6. Modulação imunológica: Seus polifenóis regulam a ativação de macrófagos M1/M2 e suprimem citocinas pró-inflamatórias (IL-6, TNF-α), contribuindo para o equilíbrio da resposta imune — essencial na prevenção de infecções recorrentes comuns nessa população.
7. Melhora do perfil lipídico: O consumo regular está associado à redução do colesterol LDL oxidado, aumento do HDL funcional e diminuição dos triglicerídeos séricos, graças à inibição da lipogênese hepática e à ativação da β-oxidação mitocondrial.
Recomendações práticas para pacientes com diabetes
A inclusão do romã na dieta deve ser intencional e individualizada. Recomenda-se o consumo de aproximadamente 80–100 g de arilo fresco (equivalente ao volume de um punho fechado), dividido em duas porções ao longo do dia, preferencialmente associado a fontes de gordura monoinsaturada (como castanhas ou abacate) ou fibras solúveis (aveia, chia), o que potencializa o efeito glicêmico atenuante.
O romã sazonal (entre outubro e janeiro no Hemisfério Sul) oferece maior concentração de compostos ativos, mas versões congeladas ou fermentadas — desde que sem adição de açúcar — mantêm boa biodisponibilidade dos polifenóis e reduzem a carga glicêmica. É fundamental ressaltar que o romã não substitui tratamento farmacológico, nem dispensa acompanhamento médico e nutricional especializado: trata-se de um coadjuvante nutricional com respaldo científico crescente, integrante de uma abordagem multifatorial no controle glicêmico e na prevenção de complicações.