O câncer nasofaríngeo representa um desafio clínico significativo no Brasil e em todo o mundo, especialmente em populações de origem asiática, mas também com incidência relevante em outras regiões. Dados epidemiológicos indicam que tanto a taxa de incidência quanto a mortalidade por essa neoplasia aumentam progressivamente com a idade, reforçando a necessidade de estratégias terapêuticas eficazes em todas as fases da doença — particularmente naqueles pacientes com recorrência ou metástase após falha de tratamentos convencionais.
Embora a radioterapia combinada à quimioterapia ainda constitua o pilar do tratamento inicial, a evolução das opções terapêuticas avançou substancialmente nos últimos anos. Entre as inovações mais promissoras está o uso de medicamentos biotecnológicos direcionados, como os anticorpos conjugados a fármacos (ADCs), capazes de entregar agentes citotóxicos diretamente às células tumorais, minimizando danos aos tecidos saudáveis.
Nesse contexto, destaca-se o vebokotamab (comercializado sob a marca Meiyouheng), um ADC desenvolvido pela Lepu Biopharma, recentemente aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para uso em pacientes adultos com carcinoma nasofaríngeo recorrente ou metastático que já tenham falhado em, no mínimo, duas linhas de quimioterapia sistêmica e em imunoterapia com inibidores de PD-1/PD-L1. Trata-se de um anticorpo monoclonal humanizado anti-EGFR (receptor do fator de crescimento epidérmico) ligado covalentemente ao agente citotóxico monometilauristatina E (MMAE) por meio de um linker sensível à proteólise (VC). Essa arquitetura molecular permite uma liberação seletiva do fármaco dentro das células tumorais que expressam EGFR, potencializando a atividade antineoplásica e reduzindo a toxicidade sistêmica.
Os resultados clínicos do estudo pivotal envolvendo 173 pacientes confirmam seu impacto clínico: no braço tratado com vebokotamab (n=86), a taxa de resposta objetiva (ORR) foi de 30,2%, comparada a apenas 11,5% no grupo controle submetido à quimioterapia padrão (n=87). O tempo médio até a progressão da doença (PFS) foi de 5,82 meses no grupo experimental, quase o dobro dos 2,83 meses observados no grupo de comparação — traduzindo uma redução de 37% no risco de progressão. Até 30 de dezembro de 2024, a sobrevida global média (OS) foi de 17,08 meses com vebokotamab, frente a 11,99 meses no braço quimioterápico.
Do ponto de vista de segurança, o perfil adverso do vebokotamab demonstrou vantagens importantes. A incidência geral de eventos adversos foi comparável à da quimioterapia convencional, mas com menor frequência de toxicidades graves: por exemplo, a neutropenia grau ≥3 ocorreu em apenas 9,3% dos pacientes tratados com o ADC, contra 35,6% no grupo quimioterápico. As reações mais comuns foram erupções cutâneas leves, anemia e parestesias — manifestações geralmente gerenciáveis e raramente associadas à interrupção do tratamento, contribuindo assim para melhor qualidade de vida e adesão terapêutica.
É importante ressaltar que não existe um “melhor medicamento” universal para todos os pacientes com câncer nasofaríngeo pós-cirúrgico ou em linhas subsequentes de tratamento. A escolha deve ser individualizada, levando em conta o perfil molecular do tumor, o estado funcional do paciente, as linhas terapêuticas prévias e os critérios de elegibilidade para cada agente. Contudo, para aqueles em situação de falha múltipla — especialmente após esquemas contendo quimioterapia e imunoterapia — o vebokotamab emerge como uma alternativa validada, oferecendo uma nova perspectiva terapêutica com benefício clínico robusto e perfil de segurança favorável.