Quando o tema é endoscopia digestiva alta — popularmente conhecida como “gastroscopia” — muitos pacientes reagem com uma expressão de desconforto. De fato, embora seja um exame seguro e fundamental para a avaliação do trato gastrointestinal superior, sua realização pode gerar certa apreensão. No entanto, é essencial compreender que esse procedimento não é apenas um recurso diagnóstico, mas uma ferramenta estratégica na prevenção e no rastreamento precoce de doenças gástricas graves, incluindo o câncer gástrico. Uma dúvida frequente entre os pacientes é: “Preciso repetir a gastroscopia todos os anos?” A resposta, baseada em evidências atuais, é clara: não — a periodicidade deve ser individualizada e orientada por critérios clínicos e laboratoriais bem definidos.
1. A frequência da gastroscopia varia conforme o risco individual
Para indivíduos com fatores de risco elevado — como histórico familiar de câncer gástrico, diagnóstico prévio de gastrite atrófica, metaplasia intestinal, úlcera péptica recorrente ou infecção crônica por Helicobacter pylori — a vigilância endoscópica é mais intensa. Nesses casos, o médico pode recomendar repetições a cada 1 a 3 anos, dependendo da gravidade das alterações encontradas e da evolução clínica. Já para pessoas assintomáticas com exames anteriores normais e sem fatores de risco identificáveis, a necessidade de repetição anual não é justificada cientificamente e pode até expor o paciente a riscos desnecessários, como complicações raras relacionadas ao procedimento ou ansiedade iatrogênica.
2. Dois marcadores laboratoriais fundamentais guiam a decisão
A conduta após uma gastroscopia normal não se baseia apenas na ausência de sintomas, mas em parâmetros objetivos. O primeiro é o resultado do teste para Helicobacter pylori: sua detecção positiva exige tratamento e, frequentemente, uma nova endoscopia para confirmação da erradicação e avaliação da mucosa. Caso o resultado seja negativo e não haja outros sinais de risco, a necessidade de nova gastroscopia diminui significativamente. O segundo marcador é a dosagem sérica de pepsinogênios (PG I e relação PG I/PG II), exame que reflete a integridade da mucosa gástrica e permite identificar precocemente processos atróficos. Valores normais desses biomarcadores, associados à ausência de lesões endoscópicas, sustentam a extensão do intervalo entre exames.
3. O conceito do “período de segurança de sete anos”
Estudos prospectivos de longo prazo, incluindo coortes asiáticas e europeias, demonstraram que, em pacientes de baixo risco com gastroscopia inicial normal e pepsinogênios dentro dos limites de referência, a probabilidade de desenvolver neoplasia gástrica avançada nos sete anos seguintes é extremamente baixa — inferior a 0,5%. Isso ocorre porque a maioria das lesões pré-neoplásicas progride lentamente, exigindo anos ou décadas para evoluir para malignidade. Contudo, essa janela de segurança só é válida sob acompanhamento contínuo: consultas periódicas com gastroenterologista, monitoramento de sintomas novos ou persistentes e realização de exames complementares sempre que indicado.
4. Quando reconsiderar a periodicidade?
Alguns sinais devem acionar imediatamente a reavaliação, independentemente do tempo desde a última gastroscopia: dispepsia persistente ou progressiva, perda de peso inexplicada, anemia ferropriva sem causa aparente, disfagia, vômitos recorrentes ou sangramento digestivo alto. Além disso, mesmo na ausência de endoscopia, exames não invasivos — como teste respiratório para H. pylori, sorologia para anticorpos anti-H. pylori, dosagem de gastrina sérica e ultrassonografia transabdominal — podem contribuir para o rastreamento contínuo da saúde gástrica, especialmente em contextos de atenção primária.
Em resumo, cuidar da saúde gástrica exige equilíbrio: nem negligência, nem excesso de intervenções. A gastroscopia é um exame poderoso, mas seu uso deve ser racional, personalizado e ancorado em dados clínicos e laboratoriais robustos. A decisão sobre quando repeti-la nunca deve ser tomada isoladamente pelo paciente — ela resulta de uma avaliação compartilhada entre médico e paciente, com base em evidências atualizadas e nas particularidades de cada caso.