O estresse psicológico prolongado pode causar insônia?
Sim, o estresse psicológico crônico — caracterizado por tensão mental prolongada, ansiedade persistente, sobrecarga emocional ou preocupações contínuas — é um dos fatores etiológicos mais bem estabelecidos para o desenvolvimento e a manutenção da insônia crônica. Quando o sistema nervoso simpático permanece hiperativado de forma sustentada, ocorre um desequilíbrio neuroendócrino que interfere diretamente nos mecanismos fisiológicos do sono: há aumento dos níveis plasmáticos de cortisol e adrenalina, redução da produção de melatonina, alteração na atividade do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA) e disfunção na regulação do ritmo circadiano. Essas mudanças promovem dificuldade para iniciar o sono (latência aumentada), despertares frequentes durante a noite, sono não restaurador e acordar muito cedo sem possibilidade de retomar o sono — todos critérios diagnósticos da insônia segundo a Classificação Internacional de Transtornos do Sono (ICSD-3).
Além disso, a ruminação mental — ou seja, a repetição intrusiva de pensamentos negativos ou problemáticos ao deitar — constitui um mecanismo comportamental-chave que perpetua a insônia, mesmo após a resolução do estressor inicial. Estudos em neuroimagem demonstram que pacientes com insônia relacionada ao estresse apresentam hiperatividade nas regiões pré-frontal e amigdalina, associadas ao processamento emocional e à vigilância atencional, o que dificulta a transição para os estágios iniciais do sono NREM.
É fundamental diferenciar a insônia aguda (geralmente reativa e autolimitada, durando menos de três meses) da insônia crônica (presente em pelo menos três noites por semana, por mais de três meses), pois esta última exige abordagem multidimensional: intervenção cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I), que é a primeira linha terapêutica recomendada pelas principais diretrizes internacionais (como as da American College of Physicians e da European Sleep Research Society), além de avaliação psiquiátrica para identificar transtornos comórbidos — como transtorno de ansiedade generalizada, depressão maior ou síndrome de estresse pós-traumático — que frequentemente coexistem e exigem tratamento concomitante.
Recomenda-se, portanto, que indivíduos com dificuldades persistentes para dormir associadas a tensão emocional contínua procurem avaliação especializada em medicina do sono ou psiquiatria, evitando o uso indiscriminado de hipnóticos de curta duração, cujo uso prolongado pode levar à dependência, tolerância e piora da arquitetura do sono.