Dor de garganta com sensação de corpo estranho: o que fazer
Uma das queixas mais comuns na prática clínica é a dor de garganta associada à sensação de corpo estranho — como se houvesse um nó, um caroço ou algo preso na região faríngea. Embora muitos pacientes
Uma das queixas mais comuns na prática clínica é a dor de garganta associada à sensação de corpo estranho — como se houvesse um nó, um caroço ou algo preso na região faríngea. Embora muitos pacientes associem imediatamente essa sensação a infecções agudas, como faringite ou amigdalite, é fundamental lembrar que diversas condições, desde alterações funcionais até doenças sistêmicas ou neoplásicas, podem desencadear esse sintoma.
A causa mais frequente é a faringite crônica ou subaguda, frequentemente relacionada ao refluxo gastroesofágico laringofaríngeo (RGE-LF). Nesse quadro, o ácido gástrico e enzimas digestivas atingem a mucosa da faringe e laringe, provocando inflamação local, edema e hipersensibilidade — gerando tanto dor quanto a típica sensação de “bola na garganta”, conhecida clinicamente como globus faríngeo. Outros fatores contribuintes incluem alergias respiratórias, exposição prolongada a irritantes ambientais (como fumaça ou poluição), uso excessivo da voz e quadros ansiosos ou depressivos, que podem modular a percepção sensorial da região.
É essencial diferenciar o globus faríngeo funcional — geralmente não progressivo, sem sinais de alarme — de manifestações patológicas graves. Sinais de alerta que exigem avaliação otorrinolaringológica imediata incluem: disfagia progressiva (dificuldade crescente para engolir), odinofagia intensa, perda de peso inexplicada, rouquidão persistente por mais de três semanas, linfonodos cervicais aumentados ou sangramento orofaríngeo. Esses achados podem indicar neoplasias de cabeça e pescoço, especialmente em pacientes com histórico de tabagismo ou etilismo crônicos.
O diagnóstico começa com anamnese detalhada e exame físico completo da cavidade oral e orofaringe, seguido, quando necessário, por videolaringoscopia. Exames complementares — como pHmetria esofágica, manometria ou endoscopia digestiva alta — são indicados conforme a suspeita clínica. O tratamento é etiológico: no caso de RGE-LF, envolve medidas comportamentais (elevação do headboard, evitar refeições noturnas) e terapia medicamentosa com inibidores da bomba de prótons; nas formas alérgicas, o controle ambiental e antialérgicos são fundamentais; já nos casos relacionados à ansiedade, a abordagem multidisciplinar com psiquiatria e terapia cognitivo-comportamental mostra-se eficaz.
Recomenda-se fortemente que pacientes com sensação persistente de corpo estranho na garganta por mais de quatro semanas procurem avaliação especializada. A investigação precoce não apenas orienta o manejo adequado, mas também permite o diagnóstico tardio de condições potencialmente graves — reforçando o papel crucial da escuta atenta e da abordagem sistemática nessa sintomatologia aparentemente banal, mas clinicamente significativa.